Represas em Propriedades Rurais: muito além de uma nova paisagem

O barramento de cursos d’água para formação de lagos artificiais constitui uma das mais antigas técnicas de aumentar as disponibilidades hídricas para atendimento de demandas por águas pelas sociedades.
Diferentemente do passado, quando os reservatórios só eram vistos pelo lado dos benefícios, hoje a sociedade está mais crítica e já olha para o reservatório pelo lado dos impactos negativos e de pessoas que são deslocadas sem compensação suficiente. Há fortes movimentos organizados contra a construção de grandes barragens. Embora haja, em alguns casos, exageros nos males atribuídos aos grandes lagos artificiais, é importante que sejam analisados seus pontos e opiniões. Também, pode-se considerar que, muitas vezes, há exageros na avaliação dos benefícios atribuídos a algumas obras. Uma análise técnica, equilibrada e imparcial, que forneça subsídios à sociedade e aos decisores, para se construir ou não, ou ainda, como operar e proteger os lagos existentes deve ser sempre considerada.
Há de se atentar, no entanto, que os impactos ambientais decorrentes desses empreendimentos são, na maioria das vezes, diretamente proporcionais à área inundada pelo reservatório. A formação de um grande reservatório de água para a produção de energia elétrica não deve ser avaliada da mesma forma que a construção de um reservatório para abastecimento público ou para a viabilização da atividade agropecuária. Não se pode usar as mesmas regras para os dois tipos diferentes de empreendimentos, uma pode ser negativa para o meio ambiente e a outra extremamente positiva.

A sustentabilidade da agropecuária, na maior parte das propriedades agrícolas, é dependente da reservação de água para uso em períodos de escassez, o que é geralmente resolvido com a construção de pequenos reservatórios. Caso se inviabilize o armazenamento de água nas propriedades agrícolas, é evidente que deverão ocorrer outros impactos de maior dimensão, tais como: aumento da miserabilidade e do êxodo rural, e com ele, todos os problemas associados, como diminuição da produção de alimentos, inflação, inchamento das cidades, diminuição da qualidade de vida, aumento da violência etc.

Os impactos provocados por reservatórios geralmente são de pouca expressividade face os benefícios que eles podem proporcionar. Nada mais pertinente que estimular e facilitar o trabalho de construção de barragens nas propriedades rurais, para conservação de água e solo, melhorando a recarga dos aqüíferos e o fluxo hídrico ao longo do ano, viabilizando projetos de irrigação, para maior produção de alimentos e geração de empregos.

O aumento da oferta hídrica nas bacias hidrográficas possibilita também, que as outorgas de direito de uso da água sejam concedidas para um maior número de usuários, atendendo, assim, aos múltiplos usos da água de maneira mais eficaz.

Destaca-se também, que além de aumentar a disponibilidade hídrica na bacia, grande parte dos problemas de enchentes nas áreas urbanas poderia ser resolvida com o armazenamento dos volumes precipitados na zona rural, implicando grandes economias. Esse é o anseio da gestão integrada, ou seja, compatibilizar riscos e oportunidades na escala da bacia. Se ambientes urbanos sofrem cada vez mais com as inundações provocadas pelas enchentes, pode-se armazenar esse excesso no campo, o que permite atenuar a onda de cheia nas cidades e aproveitar essa água para irrigação nos períodos de escassez.

É de conhecimento comum que a manutenção de uma carga hidrostática mais elevada sobre o terreno e o aumento da área para infiltração proporcionam maior recarga de água em direção aos mananciais subterrâneos. O abastecimento de aqüíferos subterrâneos é fundamental para aumentar o escoamento de base, minimizando oscilações de vazão em cursos d’água superficiais. Com a elevação do nível freático, poderá haver maior disponibilização de água para as plantas, por efeito de ascensão capilar, além de possibilitar fluxo de água subterrânea suficiente para a manutenção da vazão e perenização de pequenos córregos sob influência dessas águas freáticas.

Com maior recarga dos aqüíferos no campo, os reservatórios podem servir melhor ao seu mais nobre objetivo: armazenar quando o recurso é abundante, para usar no momento de escassez. Ao reduzir a necessidade de amortecimento das ondas de cheias, o produtor poderá dimensionar seu barramento para operar, armazenando somente o necessário, modificando ao mínimo a variabilidade natural do regime de vazões, o que, sem dúvida, evitaria transtornos na regularização.

Considera-se, portanto, que , ao contrário do que se apregoa, um programa de estímulo à construção de barragens deve ser implementado em favor dos produtores, de forma que venha transformá-los também em “produtores e conservadores de água”.

Conhecer as disponibilidades e potencialidades hídricas de uma bacia hidrográfica é imprescindível para que se possa executar projetos com maior segurança, menor custo financeiro e mais adaptados às condições ambientais da região. O Atlas Digital das Águas de Minas (www.atlasdasaguas.ufv.br), como ferramenta de planejamento e gestão dos recursos hídricos direcionado às regiões hidrográficas mineiras, surgiu exatamente para suprir essa deficiência de conhecimentos hidrológicos da comunidade técnico-científica.

Principais medidas que podem ser adotadas para mitigar e/ou compensar os impactos ambientais negativos gerados pela atividade:
  • Realizar o desmatamento e a limpeza, total ou parcial da área a ser inundada, objetivando preservar a qualidade da água do reservatório;
  • Construção de “bacias de captação de água superficial” na bacia de contribuição da barragem objetivando minimizar o assoreamento do reservatório;
  • Recuperação de áreas degradadas, como as “áreas de empréstimo”, e “bota-fora”;
  • Controle de erosão e instabilidade das encostas nas margens do reservatório;
  • Controle e racionalização do uso de agrotóxicos na bacia de contribuição;
  • Controle da entrada de fósforo e nitrogênio (esgotos domésticos, águas residuárias agroindustriais, de criatórios de animais e de escoamento superficial de áreas agrícolas fertilizadas) nas águas do reservatório.
Artigo elaborado por:
Eng. Agrº Humberto Paulo Euclydes – Coordenador do programa HIDROTEC
(Convênio SEAPA//RURALMINAS/UFV)
Fonte: CI FLORESTAS:
ciflorestas.com.br/conteudo.php?tit=represas_em_propriedades_rurais_muito_alem_de_uma_nova_paisagem&id=9917