Pesquisa da UFV permite avaliar o uso de recursos hídricos pelo setor industrial brasileiro

Mais de um bilhão de pessoas já sofrem com o racionamento de água. Demorou, mas a importância do uso racional desse bem precioso tem recebido mais atenção das pessoas. O tema, inclusive, entrou na pauta de discussão da Rio+20, evento da Organização das Nações Unidas ocorrido no Rio de Janeiro em junho. Para tirar o atraso de décadas no que diz respeito à gestão de recursos hídricos, pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) acabam de entregar ao Ministério do Meio Ambiente a Matriz de Coeficientes Técnicos para Recursos Hídricos no Brasil.

A demanda partiu do Conselho Nacional de Recursos Hídricos como parte dos esforços despendidos pelo ministério para a implementação do Plano Nacional de Recursos Hídricos (PNRH). O trabalho durou dois anos e meio, sob os cuidados do vice-reitor da UFV, o professor Demetrius David da Silva. “Até há pouco tempo o Brasil não tinha parâmetros adequados à realidade do setor industrial nacional para avaliar se um empreendimento estava ou não abusando da quantidade de água captada em um manancial hídrico para fabricar seus produtos. A referência é fundamental para a gestão das águas brasileiras e para coibir abusos que podem prejudicar regiões inteiras abastecidas por mananciais superficiais ou subterrâneos em uma bacia hidrográfica”, destaca.

A equipe avaliou as vazões de retirada, de consumo e de devolução de água ao manancial das principais tipologias de atividades industriais realizadas no país, com base na classificação nacional de atividades econômicas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Agora é possível avaliar quanto uma indústria consome de água para produzir um carro, uma tonelada de celulose, carne de boi ou suíno, por exemplo.

Mas o primeiro passo dos pesquisadores foi avaliar as metodologias existentes no mundo para fazer esse levantamento junto às indústrias. Perceberam, então, que a maior parte delas se baseava no número de empregados de uma indústria para estimar o consumo de água. “Mas isso não é confiável. Só serve para indústrias nas quais não há uso de água no processo produtivo, com demanda apenas nas instalações sanitárias. A demanda hídrica de um laticínio ou fábrica de papel e celulose é muito diferente daquela empresa que fabrica equipamentos de informática”, pondera.

O trabalho praticamente começou do zero. “Tínhamos poucos dados. E muito antigos, da década de 70, a maioria internacionais, que não refletiam a atual realidade brasileira. Nesse meio tempo, as plantas industriais mudaram muito. A base de dados estava totalmente incoerente e inconsistente”, afirma. Em alguns casos esses parâmetros faziam parecer que algumas unidades industriais consumiam muito mais ou menos água que o necessário. Os dados indicavam, por exemplo, um consumo de 190 metros cúbicos de água para a produção de uma tonelada de papel. A pesquisa mostrou que hoje esses números são bem menores. Variam entre 10 metros cúbicos (m³) e 46,3m³.

Nos últimos anos, as plantas industriais se modernizaram reduzindo a captação de águas, mas o governo não tinha base de dados para acompanhar esse progresso. Em outros casos, as indústrias investiram pouco na atualização dos processos e abusaram da retirada de água, muitas vezes prejudicando os mananciais. “Esse trabalho não indica se o uso da água na indústria é ou não eficiente, mas cria referências industriais para a realidade brasileira que constituem um parâmetro de avaliação para fins de planejamento e gestão de recursos hídricos”, diz Demetrius.

Foram mapeadas 272 classes entre indústrias extrativistas e de transformação. A nova matriz tem 80% das classes registradas na Classificação Nacional de Atividade Econômica (Cnae) e representa 90% da receita líquida do país. “Percebi durante esse trabalho uma deficiência muito grande em cadastros nacionais, como o Cadastro Nacional de Usuários de Recursos Hídricos. Faltam muitas informações nesses cadastros”, avalia.

Além da matriz industrial, foi feita outra para a agricultura irrigada. “Nosso objetivo era obter um coeficiente de vazão de retirada de água, consumo e de geração de efluente por unidade de produto. Vislumbrar o aspecto quantitativo. Saber, por exemplo, quantos litros de água são consumidos para a produção de uma tonelada de soja. O trabalho para a matriz agrícola foi menos desafiador, pois já havia muitos dados. O que fizemos foi atualizar essa matriz, considerando 59 culturas aqui desenvolvidas. Todas aquelas que ocupam área superior a 300 hectares no Brasil. Com esse trabalho, agora temos um retrato desse consumo de água no campo nos 5.564 municípios do país para cada cultura nas 12 regiões hidrográficas do Brasil”, revela.

Segundo Demetrius, a equipe do Centro de Referência de Recursos Hídricos da UFV está realizando palestras pelo país para esclarecer governantes e empresários. “Criamos uma relação de confiança entre pesquisadores e os setores industrial e agrícola. Agora, é preciso dar continuidade a esse trabalho para novas unidades de produção e criação de novas referências de otimização do uso das nossas águas.”O trabalho foi disponibilizado ao Conselho Nacional de Recursos Hídricos e já teve o mérito técnico-científico reconhecido pelo Ministério do Meio Ambiente. Em breve, os dados serão publicados para domínio público. O projeto foi viabilizado com o apoio da Fundação Banco do Brasil e da Fundação Arthur Bernardes (Funarbe).

A utilização dos parâmetros na gestão de recursos hídricos permitirá um melhor planejamento. Se uma indústria quiser abrir uma fábrica ou aumentar a produção na região onde já atua, os órgãos gestores de recursos hídricos daquela região vão poder avaliar se a quantidade de água de determinado manancial será suficiente. Vão saber também se essa quantidade vai prejudicar outros municípios ao longo daquele rio ou bacia, tomando-se como base os parâmetros atuais de utilização de recursos hídricos apresentados na matriz. Só assim será possível permitir aquele empreendimento ou fazê-lo se adaptar a um consumo mais factível.

 

Fonte: Estado de Minas.