Do Lixão à Reciclagem: Uma Novela Com Final Feliz

O lixão virou cenário de novela, colocando em evidência a precária situação enfrentada pelos trabalhadores que tiram diariamente daquele ambiente o seu sustento. E se a vida imita mesmo a arte, a trajetória de Maria Madalena Rodrigues Duarte Lima, 51 anos, moradora de Itaúna (Centro-Oeste), com certeza é digna de uma novela. Ela pisou pela primeira vez em um lixão aos sete anos, juntamente com os irmãos mais velhos de uma família com 15 filhos, e hoje é uma referência internacional por seu trabalho de mobilização e organização em cooperativas de material reciclável.

Em 44 anos lidando com o tema reciclagem, muito antes dessa palavra virar moda, ela superou preconceitos, ampliou seus horizontes e ganhou até mesmo o reconhecimento profissional, mesmo tendo feito apenas o ensino primário. Agora, Madalena, como é mais conhecida entre seus colegas, comemora mais uma vitória. É a concessão da Bolsa-Reciclagem, iniciativa que vai garantir a catadores de todo o Estado um Natal mais tranquilo. O benefício é um exemplo de como a revisão do Plano Plurianual de Ação Governamental (PPAG), processo que volta a ser realizado agora pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em audiências pelo interior e na Capital, é um passo importante para que as políticas públicas estejam em sintonia com o cidadão.

“Será um reconhecimento pelos serviços ambientais que há décadas os catadores prestam à sociedade. Nada mais justo, pois tiramos do lixo o que poderia estar degradando a natureza”, define Madalena.

Madalena atualmente é a presidente de uma cooperativa que reúne 58 famílias e processa mensalmente cerca de 230 toneladas de material reciclável. “É uma pena que muitos catadores ainda resistam em ser cooperados, embora isso não tenha custos. É que a cooperativa é um empreendimento sério, com regras, e muitos ainda preferem viver pelas ruas, ainda sujeitos ao vício do álcool e outras drogas”, lamenta.

Madalena é o tipo de pessoa que não tem medo de lembrar do seu passado, mas prefere manter os olhos no futuro. Com a mesma humildade com que conta o seu passado no lixão, ela deixa escapar que já visitou 19 países divulgando a sua experiência como gestora de cooperativa. A última dessas viagens foi à Índia, em maio, mas no seu passaporte estão os registros de incursões a países como a Tailândia e todos os países da América Latina. Entre os financiadores dessas viagens está, por exemplo, a Fundação Bill Gates, interessada nas lições que Madalena pode transmitir.

A ideia do Bolsa-Reciclagem surgiu do Projeto de Lei (PL) 2.122/11, de autoria do presidente da ALMG, deputado Dinis Pinheiro (PSDB), medida defendida pelos catadores nas audiências de revisão do PPAG realizadas no ano passado. A proposta apresentada pelos representantes dos catadores na revisão do PPAG viabilizou a destinação de recursos para a Bolsa-Reciclagem já no Orçamento do Estado de 2012.

A Lei da Bolsa-Reciclagem prevê uma compensação financeira aos catadores por seus serviços ambientais. Foram destinados R$ 3 milhões para a iniciativa neste ano e a Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), responsável pelo repasse, já cadastrou 59 cooperativas aptas legalmente a receber os recursos, cuja distribuição é acompanhada por um comitê gestor. “Recebemos 109 inscrições após publicarmos o edital de chamamento público em julho, e isso também contribuiu para que as cooperativas se regularizassem. As demais, pelo que percebemos, também estão muito próximas disso”, afirma o diretor-executivo do Centro Mineiro de Referência em Resíduos, José Aparecido Gonçalves.

O dinheiro chegará a cada um dos catadores por meio de um cálculo que leva em conta, por exemplo, o grau de estímulo à coleta seletiva, a relação espaço e volume ocupado do material, para que as cooperativas não acumulem material, e a velocidade de decomposição. O plástico, por exemplo, que demora 500 anos para se decompor, tem valor maior.

“O processo de revisão do PPAG é um espaço aberto para que todos os atores da sociedade possam discutir suas posições e construir um consenso em torno de projetos sustentáveis que tragam benefícios para a própria sociedade. É por meio de histórias como a de Madalena que percebemos que no final das políticas públicas estão pessoas e não números”, diz José Aparecido. Madalena vai além: “A Assembleia é a nossa segunda casa. Os deputados são os parceiros de nossas lutas e tenho muito orgulho do nosso Poder Legislativo”.

 

Fonte: ALMG – outubro/2012