Bola pro mato

Com a proximidade da Copa de 2014 e das Olimpíadas do Rio em 2016, em que os “olhos do mundo” voltar-se-ão para o Brasil, achei que seria interessante o Jornal da SIF (Sociedade de Investigações Florestais) publicar uma matéria de capa com o Ministro do Esporte, Deputado Aldo Rebelo, abordando sobre as perspectivas para o setor florestal brasileiro com estes eventos.

Como ele conhece bem o setor primário, até porque visitara, enquanto relator do Novo Código Florestal, várias regiões rurais e florestais, acreditei que, na condição de ministro, não haveria ninguém melhor para abordar este tema. Ocorre que, não sei por que “caixas d’água”, ele enviara um texto diferente do inicialmente proposto, o que se deu, talvez por uma falha na comunicação ou por ele não ter gostado do assunto e não entendê-lo ou talvez ainda por entender que não existem quaisquer oportunidades para o setor hábeis a justificar tal matéria. Independente do que ocorreu, eu mesmo tratei, com aquiescência dele, de escrever.

Estes eventos esportivos, quer alguns apoiem e outros condenem, têm seus prós e contras. Embora não seja o objetivo deste texto apontá-los, entendo que um benefício para o País é o fato de se ter criado uma agenda oficial dando prazo para que os investimentos em infraestrutura, sobretudo de logística sejam cumpridos. O contrário, no Brasil sempre há aqueles que criam dificuldades etno-ambientalistas para retroceder uma obra pública, vide as hidroelétricas. Assim, com a agenda apertada, a obra se concretiza, nem que seja a bíceps.

De antemão, cabe esclarecer que não se vislumbra com estes eventos esportivos que o setor florestal venda mais produto para a prática de esporte. Ou seja: não está aqui se tecendo alguma elucubração de se vender madeira para produção de canoas, arcos, varas e argolas para serem usadas nas modalidades de canoagem, flecha, salto com varas e nas performances olímpicas das barras paralelas e argolas. Longe disso. O que se imagina são as oportunidades do setor para participar da construção e da própria realização de tais eventos, seja na edificação e na reforma dos estádios, seja na infraestrutura de transporte público, nas campanhas de divulgação e, indiretamente, na publicidade, por meio da qual o setor pode divulgar a sua boa imagem para o mundo.

É obvio que o maior benefício destas obras é a geração de empregos devido a característica de empregabilidade da construção civil. Mas, especificamente para a área florestal, as oportunidades são significativas, dado que toda obra demanda muita madeira serrada, escoras, painéis de madeira e ferro e aço (que podem ser produzidos a carvão vegetal), dentre outros.

Após a obra e durante os eventos, já com a presença do público internacional no Brasil, os segmentos florestais também serão beneficiados. Por exemplo, as indústrias de celulose e papel serão agraciadas com a enxurrada de campanhas publicitárias e propagandas que, naturalmente, ocorrerão. Outro exemplo é o das indústrias que processam os produtos não-madeireiros da flora nativa, como as de cosméticos, condimentos e sucos naturais que poderão difundir os produtos e sabores tropicais para os “gringos”. Frutos como o cupuaçu, umbu cajá, buriti, etc., podem seguir o caminho do açaí e se consolidarem no mercado internacional.

É importante que, para isso, as lideranças das empresas e das associações de classe que representam todos os segmentos produtivos do setor florestal pensem, não só naquilo que é palpável, concreto, mas também no intangível, especificamente, no marketing florestal. E é justamente pela fúria dos holofotes no Brasil que será uma magnífica chance do setor se apresentar ao mundo como diferenciado em relação aos outros países.

O Brasil florestal tem todas as peculiaridades para ser conhecido, internacionalmente, não somente como um grande produtor de celulose, mas também como de ferro e aço a carvão vegetal, painéis, borracha, frutos, etc. Diante da nossa inquestionável vantagem competitiva em termos de plantações florestais e considerando o excesso de terras ociosas com aptidão florestal, temos por obrigação aumentar a nossa participação no mercado internacional de produtos daí oriundos.

Se o mundo clama uma atitude global ecologicamente positiva e quer, assim, consumir produtos ambientalmente corretos, precisamos mostrar a ele o quão corretos e competitivos são os nossos produtos florestais, vide o exemplo do carvão vegetal que compete por igual com o mineral e a madeira com os derivados do petróleo, dentre outras posturas racionais e interessantes para a proteção sustentável que tanto se almeja.

Seria interessante para o segmento metalsiderúrgico mostrar que, no Brasil, o carvão vegetal oriunda de reflorestamentos manejados sobre o que há de mais rigoroso em termos de exigência social e ambiental, diferente daqueles de onde se obtém o carvão mineral. Já que o nosso País é conhecido também pelas suas “Marias Chuteiras Siliconadas”, que tal mostrar para o mundo que os nossos silicones são naturais por serem produzidos com carvão vegetal renovável?

Embora parte das obras já tenha sido finalizada, ainda há muito que se fazer até o inicio dos eventos. É fato que as obras da Copa não tiraram as guseiras do buraco, mas provavelmente se não fossem elas, o “buraco seria mais embaixo”, ou seja, as siderúrgicas estariam numa situação muito pior.

O fato é que o setor florestal tem muito a ganhar com este episódio global. Todos os segmentos dele podem lucrar. Há que se fazer um esforço conjunto, uma força tarefa para divulgar este mercado, que é, na verdade, fundamental no plano social e ambiental. Momento impar para a “Nova Associação” se mostrar para que e por que veio. Somos bons tecnicamente, mas precisamos, urgentemente, sermos ótimos também politicamente.

Se o Agro pode ter o Pelé, por que não a Floresta ter o Neymar como garoto propaganda ou, ainda e melhor, a Paulina (Fernandes)? Para mostrar ao mundo que somos diferenciados, temos que nos sentir diferenciado. Razões para isso temos de sobra. Portanto: bola pra frente e mato pra cima deles!!!!

 

Fonte: celuloseonline. Por Sebastião Renato Valverde